
Decido ler chico, abro a latinha de incesos a tanto esquecida e de lá saco um que julgara especial naquela época e que agora não faz o menor sentido, mesmo assim não tenho coragem de acender dada a felicidade súbita que me acometera por breves segundos... Decido por outro que também já me havia fugido a memória mas que de especial não tinha absolutamente nada.
O incenso queima devagar a medida que me encanto com a ficção que havia negligenciado na biblioteca, "tão fininho", pensei. Resolvi levar só por ser de quem era, junto com um kafka nada grandes coisas, que leria noite afora só pra saber se ao menos o final salvaria a noite, e nada.
O livro me arranca risadas facilmente, faço uma pausa sem perceber e começo a narrar tudo a minha volta à moda do autor. Me pego narrando a cena recém acabada dos incensos, talvez para um blog, não sei ao certo, mas já tinha pensado em tudo, ou quase tudo; só faltava vontade de levantar e digitar. Adiei pra uns dois dia depois...
Largada na cama com a janela escancarada, me distraía e tocava o pensamento para fora do livro, direto pra praia do outro dia, como quem ouve a mãe reclamar da vida palavra por palavra, mas não é capaz de repetir a última frase segundos depois, tamanha a displicência com que ouvia; mas no meu caso, eu lia. Vez ou outra tinha vontade de volver ao topo do parágrafo, atônita de ter perdido uma grande descrição, e voltava mesmo, quando muito havia perdido apenas um verbo em espanhol tinha docemente sido encaixado naquele emaranhado de palavras, assim, como se quisesse parecer parte do nosso vocabulário mas caiu em desuso.
Já na frente do teclado olho para os lados pensando num final, coço as costelas e acho engraçado o barulho que faz o tecido com listras em sutil relevo entrando e saindo das minhas unhas mal pintadas. Penso no gato que fugiu, ou se perdeu. Lavo roupa e as esqueço na máquina, como sempre; na verdade acho que sempre sei que elas estão lá mas tenho tanta certeza que lembro onde elas estão e o que as devo estender, que acabo esquecendo de novo.
Mastigo um drops de kiwi e estendo a vista à embalagem para me assegurar que escrevi o nome da fruta direito. E se eu invertesse a ordem do texto? Em vez de narrar o que acabou de acontecer, escreveria o que ainda não aconteceu e assim podia ir moldando meus atos, fazendo meu destino acontecer segundo meus rascunhos... Afasto um pouco a cadeira para mirar o texto, pensando em como faria tal estripulia. Era uma grande descoberta! Mas a coceira não me dava sossego para tanto, malditos pernelongos.
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