21 de ago. de 2008

Autopsicografia
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
Fernando Pessoa- Cancioneiro

2 comentários:

giulianogalli disse...

Texto altamente jornalístico, hein?! Acho que o sangue da notícia corre nas suas veias e você está destinada a preencher 242 no campo carreira da Fuvest! Hahaha...Mas essa história do Pessoa ser homossexual surgiu, principalmente, porque ninguém conseguia ver com normalidade o fato de um homem abdicar de toda uma vida pessoal, amorosa, pra se dedicar à literatura. E de fato isso parece meio estranho, vai?! Ainda mais nos dias de hoje.E também tinha a amizade dele com o Mário de Sá Carneiro; parceiro de Orpheu. Eles eram muito amigos. E o Sá Carneiro era um cara muito introspectivo; só se abria com o Pessoa. Despertava desconfiança da sociedade. Aliás, na rodinha da literatura (hahaha), é mais forte o rumor de que o Sá Carneiro era homossexual do que o de que Pessoa o era. E um dos motivos que apontam pra isso é o suicídio do Sá Carneiro que, supostamente, não conseguiu suportar o amor que Pessoa sentia por uma tal de Ophélia (uma portuguesinha pequeninha, delicada... encantadora!). E é através da Ophélia que se enterram os indícios da homossexualidade. Pessoa amava-a demais. Segundo ele mesmo, o maior e mais sincero amor de sua vida. E ele era completamente correspondido. Um amor intenso; carnal (o que afasta o outro rumor: de que Pessoa morreu virgem) que só foi abandonado pelo ideal de Pessoa em se dedicar exclusivamente às letras.Tem registro disso tudo. Da carta de Pessoa se despedindo de Ophélia, e justificando isso através daquela sua “ambição” em se transformar numa literatura inteira. Das correspondências do Sá Carneiro, enfim... Mas é o que você falou: ainda tem muita coisa que não foi publicada, então a História pode mudar. Literalmente. Mas por enquanto é tido como certo: Pessoa não era homossexual!Não que eu ache isso de fundamental importância. Mas eu acho que saber coisas da biografia de autores ajuda a compreender o que eles fizeram. Em qualquer manifestação artística. Saber o que passa na cabeça desses caras contribui no entendimento das obras.E eu gostei do seu texto. Até tentei pensar em uma palavra pra defini-lo. Sem sucesso. Mas contente-se: todas passaram longe de “enfadonho”!!!

Unknown disse...

Estou aberta e definidamente com inveja desse comentário, juro!
Achei realmente bom o texto, claro e objetivo, aliás, digo que isso é bom porque sei que agora você quer parar de escrever sobre coisas subjetivas. Estou realmente impressionada, a qualidade dos textos cresce a cada nova tentativa. Diminuiram-SE as ênclises e dilui-se quase que por completo a prolixidade.
Vocês estão ficando saidinhos. Ah, esse anlgo, o templo do saber. Saudades!